sexta-feira, 31 de julho de 2009

O nosso país: vá para dentro lá fora

Muito, muito amiúde é o nosso país retratado como imerso num marasmo sócio-cultural de que jamais poderia sair, a modos de um recanto atrasado da União Europeia, mais dependente que nunca desta integração.
Não creio que haja algo de fundamentalmente errado nesta análise, no entanto esta enferma de um pecado capital - ser assinada por quem menos esperássemos - pelos próprios portugueses, quase orgulhosamente.
Um facto curioso que talvez ajude a explicar este comportamento é a reduzida exposição internacional dos portugueses e a ignorância generalizada a respeito dos "países avançados" e "civilizados" com os quais nos comparamos a todo o momento.
Não espanta, por conseguinte, que a nossa percepção acerca de nós mesmos seja tão violentamente afectada por qualquer viagem ao estrangeiro. Ao chegar aí, todos sentem falta de inúmeros detalhes que - só aí se apercebem - pautam a nossa vida e até a nossa felicidade, essa palavra semi-proibida neste "cantinho à beira-mar plantado".
À margem das críticas que então surgem às bárbaras civilizações, sobretudo norte-europeias, despertando de uma ingenuidade infantil acerca da "vida lá fora", será interessante questionar - que temos a aprender sobre a nossa política?
A "política à portuguesa" parece marcada por uma atracção irresistível pelo proibido, um certo prazer de viver à margem das regras gerais e insensíveis, de tornar hoje possível o que ontem era ainda impensável. Não nos servem as estatísticas, sejam económicas ou de desenvolvimento, pois há sempre uma margem de erro - chamemos-lhe economia paralela, qualidade de vida, clima, experiência (entretanto contabilizada pelas Novas Oportunidades) ou hospitalidade. Somos um país de externalidades, mas que teima em internalizar desigualdades sociais e desequilíbrios financeiros que nos perseguem e nos ameaçam como uma bomba-relógio.
No entanto, ao despertar do nosso sono, concluímos não ser os detentores da verdade absoluta a respeito da corrupção - afinal também na velha Inglaterra como na nova América vive a classe política de ajudas de custo ou estranhos subsídios e até na regrada Suécia se entregam rotineiramente malas de dinheiro em pagamento da adjudicação de obras públicas...
Ao colocar a mão na consciência, cada um se apercebe de que não é estranho a qualquer responsável intermédio, membro da sempre explorada classe média, receber presentes pouco inocentes pelo Natal (a célebre garrafa de vinho), além dos inevitáveis convites para eventos sociais ou desportivos. Aqueles a quem não é dado aceder a estes gestos de cortesia não desdenharão tais oportunidades, se um dia as tiverem.
Há algo de semelhante em receber milhões (não para a conta do partido mas para a própria) a troco de uma qualquer licença ou alvará? Sim e não, mas sobretudo não. Estes comportamentos são, para escândalo geral, a excepção, bem distinta da regra da fuga aos impostos ou daquela "pequena" e imperceptível corrupção.
Os traços caracterizadores da nossa política não se poderão assim encontrar generalizando comportamentos criminosos raramente imputados e condenados ou atentando às miudezas culturais que explicam a pequena corrupção ou o estilo sul-americano dos corruptos.
O que nos torna então diferentes? O nosso percurso, a nossa história, as marcas que ainda restam dele. O enviesamento do espaço político à esquerda (o CDS pode já não estar "rigorosamente ao centro", mas está pequeno e sozinho), o conservadorismo das forças de esquerda em matérias não laborais (leia-se, as políticas estruturalmente socialistas outrora adoptadas), o preenchimento do espaço vazio por um mito sebastianista ou salazarista, que leva os eleitores a desejar uma espécie de "Salazar de Esquerda", o estranho contraste entre o tabu da religião em política e o poder ainda detido pela Igreja, mesmo que merecido e ameaçado, a iliteracia dos portugueses, aqui e ali aligeirada por alguma exposição sócio-cultural que o trabalho no turismo e nos serviços confere à maioria do eleitorado.
Que receitas políticas inéditas será preciso inventar? Alguma que preencha o espaço vazio no espectro político, que clarifique se há mesmo espaço para dois partidos sociais-democratas e previna derivas extremo-direitistas. Outra que introduza de uma vez por todas no debate político a discussão das causas e dos efeitos das políticas, em lugar da imputação de responsabilidades ao anterior e ao actual governo (que, a crer na classe política, controlam tudo o que acontece de mau no país). Outra ainda que ensine aos portugueses o que é a política, com recurso a todos os media popularesm começando pelas telenovelas (reais e ficcionadas) do horário nobre.
Por fim uma ainda que faça com que os portugueses "vão para dentro lá fora". Com ou sem literacia, este é mesmo a mais necessária a que aprendamos algo sobre a nossa identidade, o nosso destino, a nossa missão como povo (se houver alguma) e a intervenção que cada um deva ter na vida política que é de todos.

P.S. Salazar nunca foi além de Badajoz, o que diz muito sobre a sua visão do país. Terá sido o único?

terça-feira, 28 de julho de 2009

BlogConf

Ontem o Primeiro-Ministro tentou fazer o que o Paulo Rangel já tinha iniciado antes das Europeias: uma conferência com bloggers. No entanto, se a do último foi um sucesso e era um convite aberto a todos os bloggers interessados, já a de José Sócrates foi limitada a 20 blogs, representados por apenas um blogger cada, com direito a também uma só pergunta. Infelizmente O Sensitivo não pôde estar presente, mas havia esperança em seguir a emissão em directo pela internet. Em baixo, um resumo do que saiu cá para fora, durante toda a conferência.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Para quem ainda tinha dúvidas...


"Ainda está para nascer um Primeiro-Ministro que tenha feito melhor no défice do que eu."

...o Pinto de Sousa acha-se mesmo o máximo. No seu mundinho, é o melhor Primeiro-Ministro que Portugal teve no pós-25 de Abril (e provavelmente o melhor de sempre). Não deve ter muitos portugueses a partilhar dessa ideia, mas no mundo do faz-de-conta, da imagem, dos magalhães e dos grandes comícios, isso também não interessa para nada. A novidade desta frase é nem lhe passar pela cabeça que venha um tão bom, ou melhor, nas décadas mais próximas. Mesmo que o "salvador da Pátria" nascesse hoje, só daqui a uns 40-50 anos seria Primeiro-Ministro. Sei que ele diria logo que não foi bem isto que disse, mas tratando-se do Sócrates, aquele "ainda está para nascer" é claro como água quanto ao que lhe vai no espírito.

sábado, 18 de julho de 2009

Modesta "Intelligentsia"


Eis que a tão falada convergência de esquerda está ser conseguida (não na perfeição, é claro) pelo António Costa. O actual nº 2 do PS conseguiu fazer as pazes com a Helena Roseta, representante da ala dissidente do PS cá do sítio, “absorveu” o renegado do BE, José Sá Fernandes, tem a bênção do “Papa” comunista José Saramago e por último…tem o apoio da tão importante e decisiva “intelligentsia” deste pedaço de terra! (Como é que é?)

Pois, este grupo de intelectuais, ou pseudo-intelectuais, artistas e actores, a “intelligentsia” segundo um dos próprios (nada modesto), está ao lado de António Costa. Só faltou dizerem que os que não o apoiam (particularmente os que apoiam o Pedro Santana Lopes, cheira-me) são uma cambada de burros. Para mim, alguém com o apoio do Saramago e do Sá Fernandes (o tal que fazia falta a Lisboa para embargar o túnel e prolongar as obras e o trânsito caótico naquela zona da cidade) não pode ser mesmo uma boa aposta e só por si, esses apoios e alianças são motivo mais do suficiente para se desconfiar e não se votar em António Costa. Sou automaticamente excluído do “grupo dos inteligentes”, mas paciência, não é algo que me tire o sono.

Realmente o Santana consegue mesmo fazer comichão a muita gente. No fundo, é ele o verdadeiro responsável por esta convergência de esquerda lisboeta.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sedes II

Olá a todos. Peço desculpa pela demora, mas aqui estão, finalmente, as prometidas palavras do Galacho sobre o congresso da Sedes. Finalmente ipsis verbis aquilo que não coube em comentário...

"Bem já que o excelentíssimo Formiga me referiu no seu post (tal como já me tinha pedido pessoalmente) cá venho eu dar a "minha achega" em estilo de comentário.
Eu tinha pensado fazê-lo numa vertente mais caricatural do que é um congresso sobre o estado da democracia (que não foi bem isso...) para duas crianças (vá!... dois jovens) no meio de uma "plateia" recheada de pessoas de renome da nossa sociedade, nas mais diversas áreas (mas principalmente na economia) e, acima de tudo, na faixa etária situada maioritariamente nos 60+. No entanto, depois de uma "acta" com tamanha qualidade, terei que desviar o foco do meu comentário para uma análise mais séria do que se passou e do que foi (ou não) discutido. Espero não cair na tentação do meu propósito inicial...
Antes de mais, gostaria de ressalvar algumas coisas que me parecem importantes. Primeiro, a tal ausência de pessoas da nossa idade ou das gerações imediatamente a seguir. Não que eu estivesse à espera de ver uma plateia repleta de estudantes (já que quer se queira, quer não, eram 60 euros ... e isso ainda pesa no nosso orçamento) mas, já da geração seguinte (30/40 anos), estava à espera de ver bastantes, já que teórica e supostamente já têm um rendimento que lhes permite gastar 60 euros num congresso como este, mas…o que é facto é que nem vê-los (a não ser talvez um ou outro na parte da tarde... mas, ainda assim, muito poucos para o que estava à espera). Bem cada um poderá tirar as ilações que quiser, agora, que eu não acho normal, não acho...
Segundo, o já referido desinteresse dos media, face ao conteúdo do próprio congresso. Este é relativamente justificável já que foram algumas vezes citados ao longo do congresso e não pelas melhores razões, devido à falta de informação imparcial e à falta de debate de ideias relativamente a questões fulcrais (como a estratégia para o país). Nenhum meio de comunicação social vai admitir a fraca qualidade dos seus conteúdos e por isso … mais vale "zarpar" da sala enquanto é tempo.
Terceiro, a ausência de pessoas com elevados cargos em partidos políticos. Este facto, a mim, pessoalmente, agradou-me já que, tal como o Prof. Campos e Cunha declarou, garantiu que aquele congresso não iria ter qualquer conotação política "fosse para que lado fosse" tratando-se assim, acima de tudo, de um debate de ideias (e não cores políticas). Não deixa também de ser um sinal de como os partidos "se estão lixando" para a opinião das pessoas sobre "eles" e a própria democracia, o que também é deveras revelador (mas não surpreendente, creio …).
Quarto, eu, muito sinceramente, achava que o congresso ia ser algo diferente, principalmente com a palestra do Prof. Ronald Findlay e do Dr. Pedro Magalhães, a ser mais focada no factor democracia e na qualidade da mesma, nomeadamente dos seus agentes (já que são eles que "lhe dão qualidade" ou não). Porém, o debate foi focado essencialmente na vertente económica da situação actual e em possíveis rumos para o futuro. No entanto, para mim, que gosto bastante de pensar sobre os mais diversos temas, mas gosto pouco de ler para me informar sobre eles e sendo este(s) (quer a democracia quer a economia) tão importantes, o congresso foi interessantíssimo e valeu bem "o investimento".
Quinto, ainda de realçar a ausência do Prof. Medina Carreira que depois das suas últimas intervenções nos media, eu gostaria tanto de ter visto no congresso, mas que, pelos vistos, não foi possível.
Após este longuíssimo preâmbulo, vou passar à análise do conteúdo das diversas intervenções.
Começando pelo início como deve ser, a intervenção do Prof. Ronald Findlay foi bastante interessante, como já disse o Formiga, e no fundo funcionou como um resumo de um semestre de aulas com o Prof. Luciano Amaral com enfoque primordial sobre a vertente da globalização. Desde os "descobrimentos ibéricos", aos impérios francês e inglês, respectivamente primeiros e segundos impérios coloniais, ao caso do Japão e ao porquê de este não ter sido colonializado como por exemplo a China e a Índia, foi uma boa lição de História. Depois revelou ainda que achava que não era sustentável um país com 5% da população mundial (os EUA) deter 25% da riqueza mundial e que, portanto, esta crise teria que acontecer um dia para "regularizar" essa situação. Disse ainda que não vê com maus olhos uma "melhor distribuição mundial dos rendimentos" e acha que esta crise é uma oportunidade para adaptarmos o nosso estilo de vida a essa inevitabilidade. Referiu ainda os B(rasil)R(ussia)I(ndia)C(hina) como os que se comportarão melhor e que por isso "beneficiarão" com esta crise. Seguiram-se as perguntas em que se ficou por respostas vagas e eminentemente teóricas, que apesar de tudo deram para retirar que vê a Europa como potência social (e por isso com um papel "educador") mas não como uma potência económica (deixemos isso para os EUA... que isso é que lhes dá jeito).
A intervenção do Prof. João Salgueiro, que começou pelas causas da crise internacional e que depois se focou mais no caso nacional e dos erros e das oportunidades que podemos aproveitar. Assim, começou por dizer que a iminência da crise estava visível para todos devido à falta de regulação, à subida de preços do imobiliário nos EUA e a especulação desmedida existente. No entanto, ninguém teve coragem para travar o crescimento que daí adveio e chegou-se a considerar que esses factores como "dopping útil à Economia". Isto levou à crise bancária e, associado ao crescimento da China, à crise de competitividade em vários sectores, que depois se verificou, e que todos conhecemos. Relativamente a Portugal, tal como foi referido pelo Formiga, considera que "Portugal não pensa", não pensa antes de fazer alguma coisa porque está à espera que a UE decida e não pensa depois porque aceita as directivas da UE cegamente. Mencionou ainda algumas coisas que podem ser facilmente melhoradas como a existência de uma política estratégica de exportação a nível mundial e não só para a UE (já que a nossa posição dita "periférica" nos dá grandes vantagens de relações com a América e que por causa dos países de língua portuguesa temos ainda relações privilegiadas com a China (só não vão para a China apregoar a nossa mão-de-obra barata, por favor… - digo eu)) e ainda a péssima estratégia de "convergência para a média Europeia em 30 anos", aquando da adesão à UE, considerando-a uma "estratégia de falência" (ainda para mais quando em vez de convergirmos divergimos) e dando o exemplo do sector bancário que se tivesse feito o mesmo já teria falido há muito. Falou ainda da importância do investimento em bens transaccionáveis já que a melhoria da economia só poderá ser conseguida através do aumento das exportações.
Depois do almoço foram revelados os resultados do estudo numa intervenção que a mim pessoalmente me decepcionou. Isto porque o Dr. Pedro Magalhães passou uma boa parte do seu tempo a explicar como fazer um estudo daquele género e quantas perguntas precisavam para cada coisa, porquê, etc., etc. e muito sinceramente, ali, o que menos interessava, era isso. Depois também pecou pela falta de ambição nas conclusões que poderiam ser tiradas do estudo nomeadamente relativo à fraca qualidade das pessoas "que fazem política" em Portugal ... ou seja "à falta de política". Houve ainda uma pergunta bastante pertinente nesta fase de uma senhora que, segundo a própria, formou a Fenprof e se encontra agora reformada ("graças a deus...", segundo a mesma) sobre o papel da educação em todo este processo... Se toda esta crise não tem como base uma crise na educação que beneficia cada vez mais a mediocridade em vez da excelência (tão evidente que isso é no objectivo de convergir para a média europeia em 30 anos...) ... eu concordo com a questão levantada, mas creio que essa só tem solução a longo prazo e, portanto, apesar de ser urgente a sua resolução, é mais premente a adopção de medidas que resolvam os problemas gravíssimos que temos de curto/médio prazo.
Sobre a mesa do contexto económico creio que o Formiga fez um excelente resumo do que se passou, sendo que eu gostaria de realçar alguns factos. Primeiro, a opinião geral de que Portugal vai crescer pouco no médio/longo prazo, o que cria graves problemas. Depois, a necessidade de redução dos gastos nesse mesmo horizonte temporal, já que, como é sabido, são eles que determinam a carga fiscal e a dívida do Estado o que, tendo em conta o peso dos mesmos no PIB real, torna esse problema gravíssimo para o nosso país. Terceiro, a ideia de que, em termos de investimento, é preciso qualidade e não quantidade para se poder rentabilizar da melhor maneira o dinheiro, o que é tão importante em tempos de crise, como os actuais (isto depois de ter sido mostrado pelo Dr. Silva Lopes que apesar de termos tido níveis de investimento elevados tivemos o mesmo crescimento que países com níveis mais baixos)... isto vem em linha com as políticas de ensino que deviam beneficiar a excelência em vez da mediocridade... parece que é estratégia política (mas isto, sou eu a pensar alto...). Quarto, a importância da implementação de medidas severas e extremas, já que ao contrário do que acontece normalmente, as medidas graduais não têm custos menores. Por fim, de realçar a importância do aumento da competitividade, nomeadamente através de mais e melhor concorrência, em sectores específicos em que Portugal tenha vantagens comparativas e não em sectores como o automóvel em que isso não é possível, com particular enfoque nos bens transaccionáveis, nunca esquecendo a necessidade da diminuição dos preços nos não transaccionáveis, já que, se isso não acontecer, o custo dos transaccionáveis continuará alto.
Por fim, o Prof. José Tavares disse ainda que se deveria ter uma política diferente relativamente às empresas que declaram falência, já que, em vez de proteger empregos, o Estado devia facilitar a integração das pessoas no mercado de trabalho porque esses casos são maioritariamente casos de polícia (não merecendo essas empresas a ajuda do Estado).
Houve ainda uma componente interessante deste congresso, que foram os cafés e o almoço em que para além de se "comer e beber" se via que servia de networking e de partilha de ideias e de contactos entre os diversos intervenientes, o que fazia destas alturas não um tempo morto mas, como que uma continuação do que era feito na sala de conferências, mas num ambiente mais informal.
Muito mais poderia ser dito sobre este congresso (sobre o seu conteúdo e sobre as nossas "aventuras") mas fica aqui o essencial do que foi para quem não teve a possibilidade de comparecer.
Peço desculpa por qualquer erro ou pela escrita excessivamente "confusa" mas não me apetece rever o que escrevi porque a hora já vai adiantada...
Cumpri assim a minha promessa ao Formiga. E já sabes para a próxima avisa que eu vou :P
Abraço"

domingo, 12 de julho de 2009

Pré-Férias


Há 6 meses ninguém poderia adivinhar como andaria hoje o PS. Mas desde as Europeias, aquilo lá pelo Rato anda mesmo uma alegria pegada. Já tive oportunidade de o constatar num comentário meu aqui. Nessa altura os ratinhos já andavam todos desnorteados com o Mário Lino a dizer que já não tinha idade para ser ministro, com o António Costa a afastar-se do governo, ao qual já pertenceu, afirmando que o Ministério das Obras Públicas estava cheio de “nódoas” e com o Manuel Pinho a resolver antecipar as suas férias com uns belos “corninhos”. O Sócrates não devia ver a hora das férias chegar, para ver se todos se acalmavam um pouco.

Mas a julgar pelos acontecimentos mais recentes, acho que o Pinto de Sousa vai ter pouca sorte e o seu maior problema não será o PSD, mas sim o próprio PS. Primeiro veio a proibição de candidaturas conjuntas (o que acho muito bem), que tem feito correr já alguma tinta. A nossa “querida” Ana Gomes, respondendo ao repto de Manuel Alegre, disse que não recebia lições de moral do poeta socialista e a “coitada” da Elisa Ferreira, começa a ouvir vozes a favor da substituição da sua candidatura à Câmara do Porto. Depois, para os portugueses em geral e os lisboetas em particular, terem a certeza do afastamento do António Costa (nº2 do PS) em relação a este governo, o próprio, não satisfeito com o primeiro ataque ao Ministério das Obras Públicas, voltou, ontem, a atacar o dito Ministério mais o Ministério da Administração Interna (se as eleições ainda estivessem muito longe, ele tinha tempo para ir atacando aos poucos todos os Ministérios e, se calhar, jurar a pés juntos que nunca fez parte deste governo). Por fim e quando parecia que os socialistas andavam a fazer as pazes com o Manuel Alegre, eis que, também ontem, o poeta socialista voltou a fazer-se ouvir e pediu que se mudem urgentemente as políticas e as pessoas do PS. O José Lello claro que não podia perder uma oportunidade para voltar a entrar em conflito com o poeta Alegre (deve ser o seu amor de estimação).

O Pinto de Sousa nem deve estar a acreditar no que se anda a passar! Teve que voltar a defender a candidatura da Elisa Ferreira, apesar das sondagens desastrosas, pois foi uma escolha pessoal (e agora o mal já está feito, era um bocado mau mudar a menos de 3 meses), preferiu realçar o que o une ao Manuel Alegre (a vontade que o PS vença), esquecendo as críticas que lhe eram dirigidas e quanto ao ataque do António Costa nem um piu!

Contudo e por incrível que pareça, o PS lá se vai aguentando nas sondagens, numas à frente, noutras atrás, mas sempre em empate técnico. E o PSD continua a não captar eleitorado. Continua na casa dos trinta e picos por cento (sensivelmente o mesmo das europeias) e o eleitorado que fugiu do PS foi quase todo para a esquerda. A culpa do “estado a que isto chegou” não é só dos governos, é também das oposições. Para mim, não é compreensível que com quatro anos e meio deste governo e com as palhaçadas que se têm sucedido, o PSD não consiga estar claramente à frente do PS nas sondagens (ou que não consiga vencer claramente o PS nas europeias, beneficiando antes do péssimo resultado que esse partido teve). O eleitorado que fugiu do PS foi o que se situa mais à esquerda, não o que se situa mais ao centro (e que o PSD deveria conseguir captar). Esse mais ao centro continua a preferir o PS e não olha ainda para o PSD como uma real alternativa de governo. Goste-se ou não da Dra. Manuela Ferreira Leite, se o PSD perder em Setembro, ou mesmo que ganhe por uma margem pequena (não podemos nunca ficar contentes se quase 60% do parlamento estiver à esquerda), a culpa será só sua (partido). Se os portugueses quiserem mesmo uma mudança, a escolha não pode ser só entre quem lá está e quem já lá esteve. Pena o partido não ter percebido isso. Mas ainda faltam 2 meses e meio, não é muito, mas em política pode mudar muita coisa.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Que Sensitivo-Psiquiatrice Tão Aguda!!


Primeiro o PSD proibiu as candidaturas conjuntas aos membros do seu partido. Há poucos dias o PS seguiu-lhe o exemplo. O problema é que o PS foi atrás dos acontecimentos. No fundo, só proibiram em virtude dos resultados negativos que se esperam para as pessoas visadas. Foi para tentar limpar a imagem, só que agora é tarde. As pessoas visadas já concorreram a uma eleição e preparam-se agora para a próxima.

Mas eis que aparece o poeta socialista (de quem agora todos, lá pelo Rato, gostam) com a solução definitiva: “Escolham!”

Não podia estar mais de acordo consigo, meu caríssimo, mas eis a sensitivo-psiquiatrice que se apresenta agora às nossas “queridas” Ana Gomes e Elisa Ferreira: o lugar e o salário de Bruxelas já estão garantidíssimos mas era de péssimo gosto escolherem Bruxelas. O ideal, para limpar a tal imagem e para tentar lançar, com alguma credibilidade, a candidatura às respectivas autarquias, seria escolherem Sintra e o Porto. Só que aí a derrota é quase, quase, certa e depois ficam sem as autarquias e sem Bruxelas.

Elas deviam andar a rezar a todos os anjinhos para não se tocar muito nesse assunto e para a situação ficar em “banho-maria” até às eleições, por isso devem estar felicíssimas e radiantes com o ultimatum que hoje lhes lançou (agora a comunicação social deverá andar atrás delas à espera de uma resposta). Eu não podia estar mais satisfeito com o contributo que hoje deu para a qualidade democrática deste país. De certeza que muitos munícipes de Sintra e do Porto concordarão comigo. Agora não se admire se, num qualquer próximo evento socialista, as respectivas visadas (não lhes quis chamar Senhoras…principalmente à Ana Gomes) lhe virarem a cara. Mas paciência! Também não perde grande coisa!

domingo, 5 de julho de 2009

Sedes

A conferência da Sedes começou com uma breve apresentação do Prof. Luís Campos e Cunha desmarcando a organização e a conferência de tendências politicas ou eleitoralistas, salientando este que os objectivos da Sedes passavam pela discussão do estado da democracia e do nosso país e não das políticas deste ou daquele governo. Claramente foi uma declaração a avisar os media de que não iriam ser feitos ataques políticos durante o dia e provavelmente teve resultado, dado que depois de almoço a maioria das câmaras se tinha ido embora.
A conferência propriamente dita começou com uma palestra bastante interessante do Prof. Robert Findlay em que este fez uma breve análise da globalização e dos seus mais de 500 anos de história, considerando os portugueses como “culpados” desse fenómeno. No final fez uma breve análise do estado económico do mundo e nomeou alguns países que ele considera que terão desempenhos económicos de excelência no futuro. Rússia, Índia, China, Brasil, EUA e tigres asiáticos foram os países destacados. Na sessão de perguntas que se seguiu o Prof. João Salgueiro abriu as hostilidades (no seu habitual tom provocativo) com uma pergunta sobre a Europa (que não tinha sido referida naquele conjunto de potências) à qual Robert Findlay não respondeu, preferindo ressaltar o papel da Europa enquanto veículo democratizador. A ideia que fica é que a Europa continuará, para o Prof., a crescer a taxas mais ou menos constantes e baixas e que o seu papel no mundo é o da educação e mediação e não o de liderar a mudança e o desenvolvimento. A pergunta seguinte foi sobre a opinião do Prof. sobre África e foi respondida com lugares comuns (se os problemas democráticos forem resolvidos, se houver instituições credíveis, etc.), assim como a última pergunta, da lavra do Eng. Henrique Neto.
Seguiu-se um breve intervalo para café e a intervenção do Prof. João Salgueiro sobre a crise e, em especial, sobre a economia portuguesa. No seu estilo habitual o Prof. considerou que os políticos portugueses têm dado “doping à economia” e que atravessamos uma grave crises estrutural e de competitividade, fazendo um apelo para que fossem ali discutidas durante o dia formas de ultrapassar essa crise. O Prof. falou de alguns erros cometidos como o facto de pensarmos que somos demasiado pequenos para sermos competitivos, ou o de pensarmos ser demasiado periféricos, assim como de alguns complexos, nomeadamente a dependência da UE, – “Portugal não pensa sem ouvir a União Europeia”, “Queremos ser mais europeus que os outros” –, ressalvando no entanto que essa dependência não era unicamente portuguesa mas que representava um problema que devia ser resolvido. Referiu-se ainda ao facto de o objectivo principal da adesão portuguesa à União europeia não estar a ser cumprido desde o início do século (convergência para a média europeia) e de ninguém falar disso, – “Eu não queria dizer trapaça porque acho muito forte, arranjem-me aí uma palavra mais simpática” – dizendo aí que se a banca portuguesa tivesse convergido para a média europeia em 30 anos, o dito objectivo para Portugal, já teria sido comprada pelos franceses.
Outro dos complexos referidos foi o da maioria dos portugueses contra os empresários e empreendedores – “Os empreendedores são uma espécie sujeita à caça sem reserva” – e disse que os nossos empreendedores não eram piores do que os do resto da Europa, pois “não vejo nenhuma fila em Badajoz para entrar em Portugal”. Referiu-se ainda ironicamente ás directivas europeias de que Portugal está sempre à espera dizendo que não é preciso haver preocupações com a estabilidade democrática em Portugal pois “há uma directiva europeia que proíbe os golpes de estado”. Seguiu-se nova sessão de perguntas a que o Presidente da associação de bancos respondeu da mesma maneira, ressalvando o nosso problema de competitividade e a necessidade de o resolvermos. Saliento no entanto a sua resposta a uma pergunta em que falou dos seus tempos de governação, dizendo que quando esteve no governo a sua missão não foi, nem podia ser, alterar os problemas estruturais do país, mas sim aguentar o governo de modo a que se pudesse fazer a revisão constitucional. Fez a campanha seguinte porque achou que deveria, em coerência com as ideias defendidas, fazê-la, mas que não gostou do que viu ao nível dos partidos já nessa altura. As palavras foram mais ou menos as de que já tinha saído do governo de Marcelo Caetano quando percebera estar iludido ao pensar que ele faria aquilo que mais tarde foi feito em Espanha, e que, nessa altura, decidira não participar em mais nenhum governo. Só o período de excepção em causa o fez voltar atrás.
O estudo sobre a democracia ficará em breve disponível no site da sedes (eles recomendam que sigamos o blog pois poderá haver algumas intervenções lá) portanto não me vou alongar grandemente sobre o mesmo. Basta dizer que os portugueses acreditam que a democracia funciona, só não acredita nos seus agentes políticos no momento nem que a sua voz seja ouvida por estes. Os portugueses não acreditam igualmente que a justiça não seja influenciada pela política e duvidam também da total isenção das televisões (será por isto que o congresso teve tão pouca repercussão mediática?). Das perguntas feitas a Pedro Magalhães, autor do estudo, ficaram no ar algumas sugestões para o futuro, nomeadamente a do estudo de quanto valoriza cada português a democracia.
Chegados finalmente à mesa do novo contexto económico, cujos participantes foram escolhidos por Vítor Bento, foi curioso notar como desde o início o tom dos oradores foi diferente. O Professor Silva Lopes começou, falou sobretudo da crise conjuntural internacional e portuguesa, defendendo o investimento útil (importa ressalvar a palavra útil, porque não a vi no jornal que li à bocado) que não tem sido feito nos últimos anos. Defendeu igualmente a subida do investimento para o nível de 20% (está nos 18%, mas já esteve perto dos 40, sem que tenhamos tido melhores resultados) e disse sobre o défice e o endividamento que mesmo ele, que sempre alertou nos últimos anos para a necessidade premente de resolver esses dois problemas, achava que Portugal devia investir mais, chamando a atenção que o actual défice previsto para Portugal é inferior à média prevista para a UE pela OCDE. Há pouca margem de manobra, é certo, mas deveríamos utilizá-la, foi essa a ideia base a reter, sendo que investimentos como o TGV são considerados dispensáveis, pelo seu cariz internacional e pelo tempo elevado que leva a concretizar. “As senhoras que vão todos os dias ao cabeleireiro”, foi a expressão utilizada para sintetizar a sua ideia do que seria o bom consumo e investimento (em bens nacionais e dirigido ás PME).
O professor Daniel Bessa optou por focar-se inteiramente na crise estrutural. Foi bastante duro com as politicas seguidas nos últimos anos e defendeu a necessidade urgente de Portugal se tornar mais competitivo. Perguntou porque não se via, por exemplo, a saúde como um transaccionável, e esteve, basicamente, na mesma linha que o professor João Salgueiro. Chamou no entanto a atenção para o seu desacordo com os números do Professor Silva Lopes sobre o défice, dado que no primeiro trimestre houve uma quebra de receitas de 20% e mesmo que esta fique apenas em 10% no total do ano o défice, tendo em conta essa queda, nunca poderá ficar abaixo dos 7%. “Entre 7 e 14 há muito espaço” disse, e serviu-se disso para se opor à subida do investimento e para pedir cuidado com as contas públicas pois o problema estrutural das mesmas “não foi corrigido nos últimos 5 anos”.
O nosso bem conhecido José Tavares fez uma apresentação mais técnica, sendo que por mais técnica se entende quase uma aula, em que focou alguns aspectos interessantes, nomeadamente o da crise ser uma oportunidade para reformas profundas, pois o custo de oportunidade de as fazer decresce, salientando no entanto que duvidava que houvesse espaço para isso em Portugal. Sobre a crise do sistema financeiro, já debelada, considerou-a como natural e como o instrumento que permitia aferir sobre a utilidade dos novos produtos financeiros, dizendo que os maus foram recusados e afastados e que os bons, que criavam valor, ficariam.
A sessão de perguntas que se seguiu foi aberta por uma dura intervenção do Professor João Salgueiro, pedindo que a discussão se focasse na crise estrutural portuguesa e criticando os participantes por não terem estado presentes de manhã e perderem tempo a repetir algumas coisas que já tinham sido ditas (nomeadamente por ele próprio). Respondendo a algumas palavras do Professor Silva Lopes sobre a necessidade de mais regulação do sistema financeiro disse que no caso português já havia demasiada regulação e que era preciso ter cuidado com isso, baseando a sua resposta no facto de os bancos que tinham tido problemas em Portugal os terem tido devido a um caso de policia e a má gestão e não à crise financeira e à exposição a produtos tóxicos propriamente ditos. Voltou a falar do cuidado a ter com as ditas “normas europeias” que viriam regular tudo, revelando o seu temor de que se possa verificar um excesso de burocracia tal que paralise a actividade bancária.
Os participantes tiveram 5 minutos cada para tentar responder brevemente a todas as perguntas colocadas e, desses 5 minutos, destacaria a última intervenção do Professor José Tavares, falando finalmente da situação portuguesa, questionando a industrialização defendida por alguns dos participantes (pois para sermos competitivos na industria teríamos de baixar salários) e falando do caso Irlandês em que, há 5 anos, foram recusados projectos de produção automóvel como o da Auto-Europa pois não era aquilo que eles consideravam o lugar da Irlanda produzir. Nem o da Irlanda nem o da Europa aliás, segundo os próprios Irlandeses, pois os custos de produção seriam sempre muito mais elevados do que noutros países do mundo.

O Galacho é livre de comentar longamente e preencher muita coisa de que a minha cabeça leviana se esqueceu. Agora com licença, cumpri a promessa e vou dormir. Até daqui a um mês.

sábado, 4 de julho de 2009

Sobre a Sedes

Espanta-me a pouca atenção mediática à conferência. Houve jornalistas que saíram a meio da conferência do prof. João Salgueiro e nenhum (pelo menos televisivo) esteve presente na mesa redonda do contexto económico. Não vi os telejornais, mas olhei-os de alto e não me pareceu que sequer o estudo em si tivesse grande atenção. É preocupante porque aquilo que se disse deveria fazer acordar muita gente (talvez os media ficassem ofendidos com as duras criticas ouvidas durante a conferência ao seu trabalho), mas parece que quando alguns dos melhores economistas deste país se juntam para falar sobre o país há pouca gente interessada. Manuel Pinho é mais importante, ao que parece, dado que vi em rodapé que o destaque da entrevista que fizeram no local ao Eng. Henrique Neto era sobre esse assunto.

Prometo para amanhã uma descrição pormenorizada do evento, mas para já queria deixar esta nota. Desilude-me a cobertura. Amanhã terei de comprar os jornais para ver se é sintomático ou apenas televisivo.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O Vergonhoso Estado da Nação


Podia ser na feira da ladra. Podia ser numa qualquer sala de aula de uma qualquer escola deste país. Mas era mesmo no Palácio de São Bento que se estava a discutir o Estado da Nação. Vi deputados a berrarem uns com os outros. Vi o líder da bancada parlamentar do maior partido da oposição e o Presidente da Assembleia da República (2ª figura de Estado) a zangarem-se, quais duas comadres (Não está! Estou! Não está! Estou! Não está!). Vi um Ministro de Portugal a fazer “corninhos” a um deputado...

Não interessa (muito) quem disse o quê e quem tinha ou não razão. O que interessa é que tudo isto se passou no Parlamento Nacional. Lembra-me o descrédito das Instituições de que o Formiga costuma falar. Estou curioso para ver amanhã os resultados do estudo da SEDES sobre a qualidade da Democracia em Portugal.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Cá para mim...

Isto da saída de Manuel Pinho é uma campanha branca para que amanhã não se fale muito do que for dito no Instituto da Defesa Nacional.

Mais uma semana negra para Sócrates, ele próprio em grande plano no debate.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Se Madoff fosse português...


"Para começar, se Madoff fosse português, dificilmente seria apanhado. Se fosse apanhado Maria José Morgado daria oito entrevistas sobre o assunto, o processo estaria "em investigação" durante 3 anos, quatro jornalistas seriam condenados por "violação do segredo de justiça", mais cinco anos de expedientes diversos, dois de férias judiciais e mais quatro de recursos. No fim, Madoff seria ilibado sem que tivesse ficado provada a existência de qualquer fraude."

Rodrigo Moita de Deus para o 31 da Armada. Provavelmente aconteceria algo do género. Para quem não sabe, Madoff (já!) foi condenado a 150 anos de prisão.