quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

É só uma pequenina(?) coisa mas irrita-me verdadeiramente


Não, este post não é sobre a Economia, o estado do país ou a corrupção e ineficácia da justiça. Não é sobre nenhum desses grandes assuntos que afectam verdadeiramente a vida das pessoas e que aparecem diariamente em tudo o que é jornal. E não, definitivamente não é sobre o casamento homossexual. Recuso-me a entrar na histeria e na palhaçada em que isto, previsivelmente, se tornou (Mas agora só se fala nisto? É assim tão importante estar a discutir isto neste momento? O Zézito Sócrates anda mesmo a gozar connosco…e nós vamos atrás).

Esta pequenina coisa que me irrita verdadeiramente é o nosso “crido” (des)acordo ortográfico. É algo que desagrada aos mais novos e aos mais velhos, desagrada à direita e também à esquerda, desagrada a republicanos e a monárquicos, desagrada a quem é do norte, do sul, do centro ou das ilhas, é algo que desagrada aos portugueses e, contudo, vamos ter que levar com isto. E não percebo. E irrita-me. Verdadeiramente. Como é que os políticos, que nos deveriam representar, nos representam tão mal? E esteve mal o governo. E esteve mal a oposição. E esteve mal o Cavaco, também. Toda a classe política é conivente com este desacordo. E parecem ser mesmo os únicos que estão a favor do mesmo (devem ter sido abençoados com uma qualquer visão da providência que escapa ao comum dos mortais, só pode).

E irrita-me. É só uma pequenina coisa, comparada com os grandes problemas do país, tal como o é o casamento homossexual. Contudo, esta pequenina coisa é “só” a nossa língua. Algo que todos os portugueses reconhecem, independentemente das diferenças políticas. É só uma pequenina coisa que talvez não seja assim tão pequenina. Pelo menos merecia, isto sim, uma petição para um referendo. A nossa língua é mais importante que o casamento homossexual. Digo eu…

p.s.(salvo seja): O “correto” da imagem vai passar a estar mesmo correcto. Por sua vez o correcto vai passar a estar errado. Confuso? Digamos que quem escrevia mal, vai passar a escrever bem e quem pensava que escrevia bem, vai passar a escrever mal. Como diria uma professora minha: “Fantástico!”

3 comentários:

  1. Este é um assunto sobre o qual tento, na medida dos possíveis, manter algum silêncio e afastamento. O facto é que, pessoal e emotivamente, acho o acordo uma verdadeira palhaçada. Disso não há dúvidas. E não imaginam o enjoo que se me atravessou quando, recentemente, descobri que o rodapé do telejornal da SIC já se havia rendido ao acordo (por segundos pensei que estava a ver a TV Globo).

    No entanto, após um análise mais racional, as minhas reservas acabam por se erodir um pouco. Não obstante todo o transtorno interior que me provoca este acordo, é relativamente simples compreender porque é que não houve qualquer tipo de oposição política ao dito cujo: o poder do Brasil. Com um estalar dos dedos, os brasileiros conseguem passar a sua língua oficial de "Português" para "Brasileiro". Há consenso entre linguistas e politólogos de que, dada a crescente influência internacional do Brasil, tal já seria possível (por mais estúpido que possa parecer). Após o Brasil, viriam Angola e Moçambique. E com iso desvanecer-se-ia um dos canais de influência com maior potencial de que Portugal dispõe: o da Lusofonia.

    A "The Economist", recentemente, já aludiu à existência de uma "Lusosfera", uma comunidade de países, na sua maioria potências emergentes nos campos da economia e política internacional, que vêm na herança cultural, mas acima de tudo, linguística portuguesa o seu principal motivo e ónus de cooperação. Portugal surge como o líder natural de tal comunidade, não apenas por deter a semente da lusofonia, como também por ser, por enquanto, o único destes países que pertence ao clube dos países ricos. Portugal não pode, de forma alguma, perder esta posição privilegiada de proximidade e liderança natural em relação a países que, muito possivelmente, irão dominar o cenário internacional nos séculos XXI e XXII, quer a nível político, militar, económico e tecnológico. O acordo ortográfico representa uma concessão a esse grupo de países que, por muito que me custe a engolir, não deixo de considerar compreensível.

    PS: Naturalmente, continuarei a redigir segundo o "velho" português.

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  2. Não percebo como consideras compreensivel e, no entanto, continuarás a "redigir segundo o velho português".

    Eu percebo a lógica económica por detrás da coisa. Não compreendo que se descure toda uma história e culturas... Compreendo ainda menos que os iluminados do costume achem que conseguem alterar a lingua por decreto.

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  3. Sim, claro que eu sei que isto é só por causa do Brasil e que há interesses económicos por detrás deste acordo. Mas como aceitar isso? Como aceitar que outro país nos diga como escrever (ou falar, qualquer dia)? Ainda para mais a língua é "nossa"! Fomos nós que lhes "demos" a língua e não o contrário! Eu acho isto uma tremenda humilhação! Seria impensável o Reino Unido, a França ou a Espanha aceitarem um acordo igual! Por mais que tenha sido prometido, ou não prometido, a sério que não acredito que um dia vá perceber como é que toda a classe política foi conivente com isto.

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